Introdução
Em muitas comunidades da Amazônia, o silêncio da madrugada nunca é completamente vazio. Ele pode ser cortado por um assobio fino, insistente e inquietante — um som que parece circular casas, atravessar paredes e provocar um desconforto difícil de explicar. Esse assobio anuncia a presença da Matinta Perera, uma das figuras mais complexas, simbólicas e duradouras do folclore brasileiro.
A Matinta Perera não é apenas uma lenda criada para assustar crianças ou justificar sons da noite. Ela é um instrumento cultural poderoso, usado durante séculos para transmitir valores, impor limites sociais, explicar o inexplicável e preservar a memória coletiva de povos indígenas, comunidades ribeirinhas e populações tradicionais da Amazônia.
Ao longo deste artigo premium, você vai compreender em profundidade quem é a Matinta Perera, como essa lenda surgiu, por que ela se transformou ao longo do tempo e quais mensagens simbólicas continuam atuais até hoje. Mais do que conhecer uma história, você vai entender o papel dela na formação da identidade cultural brasileira.
Para ampliar ainda mais essa imersão no imaginário popular do país, vale também explorar o conteúdo completo sobre o Folclore Brasileiro: Mais de 20 Lendas e Personagens que Marcam Nossa História, onde ela se conecta a outras narrativas fundamentais da cultura nacional.

O que é a Matinta Perera?
A Matinta Perera é uma entidade lendária do folclore amazônico, especialmente difundida nos estados do Pará, Amazonas, Maranhão e Amapá. Em sua forma mais conhecida, ela é retratada como uma mulher idosa que possui a habilidade sobrenatural de se transformar em um pássaro noturno, geralmente associado a aves de canto estridente, como corujas ou aves não identificadas da floresta.
Durante a noite, ela sobrevoa casas e vilas emitindo um assobio agudo e repetitivo. Esse som funciona como um aviso e, ao mesmo tempo, como um pedido silencioso. Ao amanhecer, a entidade retorna à forma humana e aparece na porta das casas solicitando algo simples — café, fumo, comida ou abrigo.
A recusa em atender esse pedido, segundo a tradição, pode resultar em doenças, má sorte, conflitos familiares ou perdas materiais. Já quem atende demonstra respeito às regras invisíveis da comunidade e permanece protegido.
Origem da lenda da Matinta Perera
Influência das cosmologias indígenas

As raízes mais profundas da Matinta Perera estão nas cosmologias indígenas amazônicas. Para muitos povos originários, a floresta é um espaço vivo, habitado por espíritos capazes de transitar entre formas humanas e animais. Aves noturnas, em especial, sempre foram vistas como mensageiras entre o mundo físico e o espiritual.
Nessas culturas, sons noturnos não eram encarados como aleatórios. O assobio associado à Matinta Perera representava um aviso, uma presença espiritual que exigia atenção e respeito às normas coletivas.
A contribuição das tradições africanas
Com a chegada de africanos escravizados ao Brasil, a lenda se incorporou elementos de tradições espirituais africanas, como a ideia de maldição transmitida, pactos espirituais e a possibilidade de libertação por meio de rituais ou trocas simbólicas.
Em algumas versões, a Matinta Perera não escolhe ser o que é. Ela carrega um fardo espiritual herdado, que só pode ser transferido ou encerrado mediante um acordo — o que reforça a dimensão moral da lenda.
A influência europeia e a figura da bruxa
A colonização portuguesa adicionou à narrativa elementos típicos do imaginário europeu, como a figura da velha associada à feitiçaria, à marginalização social e ao medo do feminino fora dos padrões. Assim, ela passou a ser vista como uma mulher solitária, temida e observada com desconfiança.
O assobio: som, medo e simbolismo
O assobio da Matinta Perera é o aspecto mais reconhecido da lenda. Ele é descrito como:
- Agudo e prolongado
- Repetitivo e ritmado
- Capaz de parecer próximo e distante ao mesmo tempo
Esse som, ouvido geralmente na madrugada, cria um estado de alerta psicológico. Em comunidades sem iluminação artificial ou isolamento acústico, o assobio se tornava um evento coletivo, reforçando a crença e o medo compartilhado.
O ritual da visita matinal
Após a noite de assobios, ela aparece em forma humana. Esse momento é central na lenda, pois envolve um teste ético e social.
O pedido simples
O que a Matinta Perera pede nunca é excessivo:
- Um pouco de café
- Um cigarro de palha
- Um pedaço de pão
- Um prato de comida
O significado do gesto
Atender ao pedido simboliza:
- Hospitalidade
- Solidariedade
- Respeito aos mais velhos
- Reconhecimento das regras comunitárias
Negar, por outro lado, representa egoísmo, quebra de laços sociais e desprezo pela tradição.
Variações regionais da lenda
Matinta Perera no Pará
No Pará, a Matinta Perera costuma ser identificada como alguém da própria comunidade. Muitas vezes, a suspeita recai sobre mulheres idosas, solitárias ou vistas como diferentes.
Matinta Perera no Maranhão
No Maranhão, a narrativa se mistura fortemente com histórias de feitiçaria, pactos espirituais e transmissão da maldição para outra pessoa.
Matinta Perera no Amazonas
No Amazonas, a ligação com a floresta é ainda mais intensa. É vista como uma presença que protege e pune, mantendo o equilíbrio entre humanos e natureza.
Significados simbólicos
A Matinta Perera funciona como um espelho social. Seus significados incluem:
- A valorização da coletividade
- O medo do isolamento social
- O respeito às tradições
- A importância da empatia
Um mecanismo de educação social
A lenda foi usada durante gerações como ferramenta educativa, especialmente para crianças, ensinando limites, respeito e convivência.
A Matinta Perera e a representação feminina
A figura da Matinta Perera revela muito sobre como mulheres idosas foram historicamente vistas:
- Mulheres fora dos padrões sociais
- Velhice associada ao medo
- Sabedoria transformada em ameaça
Essa representação também abre espaço para reflexões contemporâneas sobre preconceito etário e gênero.
Comparação entre Matinta Perera, Curupira e Iara: diferentes faces do imaginário amazônico
As lendas amazônicas não existem de forma isolada. Elas se complementam, dialogam entre si e constroem um sistema simbólico complexo sobre a relação entre seres humanos, natureza e regras sociais. Nesse contexto, comparar Matinta Perera, Curupira e Iara ajuda a compreender como o folclore amazônico aborda medo, proteção, sedução e moralidade de maneiras distintas.
Matinta Perera: a guardiã social invisível
Atua principalmente no campo social e moral. Sua presença não está diretamente ligada à proteção da floresta, mas à convivência comunitária.
Ela simboliza:
- A importância da hospitalidade
- O respeito às tradições e aos mais velhos
- A punição simbólica para a quebra de regras sociais
Seu medo é psicológico e cotidiano, surgindo no espaço doméstico e comunitário.
Curupira: o protetor da floresta

O Curupira representa a força da natureza reagindo contra a exploração predatória. Com seus pés virados para trás e comportamento imprevisível, ele confunde, engana e pune caçadores e invasores.
Ele simboliza:
- A preservação ambiental
- O equilíbrio entre homem e natureza
- A punição para a ganância e o desrespeito à floresta
Diferente da Matinta Perera, o Curupira atua diretamente no território natural.
Iara: sedução, desejo e perigo

A Iara encarna o poder da sedução e do encantamento. Ela atrai principalmente homens para as águas dos rios, misturando beleza, desejo e risco.
Ela simboliza:
- O fascínio pelo desconhecido
- A força feminina ligada à natureza
- Os perigos ocultos por trás da atração
Seu medo não é social nem ambiental, mas emocional e instintivo.
Tabela comparativa das lendas amazônicas
| Personagem | Espaço de atuação | Principal simbolismo | Tipo de medo gerado |
|---|---|---|---|
| Matinta Perera | Comunidade e casas | Moral social e solidariedade | Psicológico e cotidiano |
| Curupira | Floresta | Proteção ambiental | Territorial e físico |
| Iara | Rios e águas | Sedução e perigo | Emocional e instintivo |
Essa comparação mostra como o folclore amazônico constrói um sistema completo de valores, onde cada personagem atua em um campo específico da experiência humana.
A Matinta Perera na cultura popular contemporânea
A Matinta Perera continua presente em:
- Livros infantis e didáticos
- Projetos educacionais
- Festivais culturais
- Produções audiovisuais regionais
Ela é constantemente reinterpretada, ganhando novas leituras sem perder sua essência simbólica.
A importância da Matinta Perera na preservação cultural
Manter viva a história é preservar a memória de comunidades inteiras. A tradição oral garante que valores, medos e ensinamentos atravessem gerações.
Perguntas frequentes
A Matinta Perera existe?
Ela existe como símbolo cultural e imaginário coletivo.
Por que ela pede comida ou café?
O pedido simples reforça a ideia de solidariedade e convivência comunitária.
A Matinta Perera é uma figura do mal?
Ela não é totalmente boa nem má. Sua função é moral e educativa.
Por que a lenda da Matinta Perera permanece atual?
Ela continua relevante porque aborda temas universais: medo, empatia, solidariedade, respeito e convivência social.
Conclusão
A Matinta Perera é muito mais do que uma lenda assustadora contada à beira da cama ou repetida em noites silenciosas do interior amazônico. Ela é uma narrativa profundamente humana, construída para explicar medos coletivos, reforçar regras invisíveis de convivência e preservar valores essenciais em comunidades onde a palavra sempre foi o principal instrumento de ensino.
Ao acompanhar a trajetória da Matinta Perera, percebemos como o folclore funciona como um verdadeiro código social. A lenda ensina sobre hospitalidade, empatia, respeito aos mais velhos e responsabilidade coletiva, usando o medo não como fim, mas como ferramenta pedagógica. Trata-se de um conhecimento transmitido sem livros, sem escolas formais, mas com enorme eficácia cultural.
A Matinta Perera também revela muito sobre o Brasil profundo — aquele que nasceu do encontro entre povos indígenas, africanos e europeus. Em sua figura estão presentes a espiritualidade da floresta, a herança ancestral africana e os estigmas sociais herdados da colonização. Cada assobio noturno carrega séculos de história, resistência e adaptação cultural.
Em um mundo cada vez mais digital e acelerado, compreender a Matinta Perera é reconhecer o valor da tradição oral como forma legítima de educação, memória e pertencimento. Preservar essa lenda não é manter o medo vivo, mas garantir que as histórias que moldaram identidades continuem sendo contadas, reinterpretadas e respeitadas.
Conhecer a Matinta Perera, portanto, é conhecer o Brasil em sua essência mais simbólica — um país onde o imaginário popular não apenas diverte ou assusta, mas ensina, une e dá sentido à vida em comunidade.
Belisa Everen é a autora e idealizadora do blog Encanta Leitura, onde compartilha sua paixão por explorar e revelar as riquezas culturais do Brasil e do mundo. Com um olhar curioso e sensível, ela se dedica a publicar artigos sobre cultura, costumes e tradições, gastronomia e produtos típicos que carregam histórias e identidades únicas. Sua escrita combina informação, sensibilidade e um toque pessoal, transportando o leitor para diferentes lugares e experiências, como se cada texto fosse uma viagem cultural repleta de aromas, sabores e descobertas.
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