introdução
A formação da alma do Brasil é um mosaico complexo, onde a espiritualidade atua como a argamassa que une cultura, resistência e história. Entender as religiões de matriz africana é, na verdade, compreender a própria fundação do que significa ser brasileiro, desde o vocabulário que usamos até a forma como celebramos a vida e a morte.
As religiões de matriz africana não são apenas sistemas de crenças; elas são repositórios de saberes ancestrais que sobreviveram a séculos de adversidades para se tornarem pilares da nossa sociedade. Neste artigo, vamos mergulhar profundamente na influência do Candomblé e da Umbanda, explorando como essas tradições moldaram nossa identidade nacional.
Para uma compreensão ainda mais ampla de como esses elementos se conectam a outras esferas da nossa vida, recomendamos a leitura do artigo O Elo Inquebrável: Cultura Afro-Brasileira e Suas Influências na Música, Arte e Religião.
O Que São as Religiões de Matriz Africana?

Elas englobam um conjunto de práticas religiosas que têm sua origem ou inspiração nas tradições trazidas pelos povos escravizados da África Subsariana. No Brasil, essas crenças se adaptaram, resistiram e deram origem a manifestações únicas, sendo as mais proeminentes o Candomblé e a Umbanda.
O Candomblé é uma religião de base étnica, preservando ritos, línguas e a cosmologia de nações como os Yorubás, Jejes e Bantus. Já a Umbanda é considerada a única religião genuinamente brasileira, surgindo da fusão entre as religiões de matriz africana, o espiritismo kardecista e elementos do catolicismo e da sabedoria indígena.
A importância das religiões de matriz africana vai além do sagrado. Elas estabeleceram redes de solidariedade, preservaram idiomas africanos e influenciaram diretamente a culinária, a moda e o comportamento social do povo brasileiro ao longo dos séculos.
Candomblé: A Preservação da Ancestralidade Pura

No coração do Candomblé reside a conexão com os Orixás, divindades que representam as forças da natureza. Essa vertente das religiões de matriz africana foca na manutenção da linhagem espiritual e na observância rigorosa de preceitos que remontam aos reinos africanos pré-coloniais.
Cada terreiro de Candomblé funciona como uma comunidade autônoma, onde a hierarquia é baseada no tempo de iniciação e no conhecimento acumulado. Como uma das principais religiões de matriz africana, o Candomblé ensina que o ser humano não está separado da natureza, mas faz parte de um ecossistema espiritual equilibrado.
O impacto do Candomblé na cultura brasileira é visível na música. Os ritmos dos atabaques deram origem ao samba, ao maracatu e a diversos gêneros que definem a sonoridade do Brasil. É impossível falar da música popular brasileira sem reconhecer o berço das religiões de matriz africana.
Umbanda: A Síntese da Espiritualidade Brasileira

A Umbanda surge no início do século XX como uma resposta à necessidade de um espaço onde o preto velho, o caboclo e a criança pudessem se manifestar. Diferente do Candomblé, essa vertente das religiões de matriz africana é mais eclética e foca intensamente na caridade e no aconselhamento espiritual.
Na Umbanda, vemos a integração de elementos que definem a miscigenação nacional. Ao valorizar o espírito do indígena (Caboclo) e do ex-escravizado (Preto Velho), essa manifestação oferece uma cura simbólica para as feridas históricas da colonização.
Muitos brasileiros que não se declaram oficialmente umbandistas frequentam terreiros em busca de passes ou aconselhamentos. Isso demonstra como as religiões de matriz africana permeiam o cotidiano de forma sutil, transcendendo as barreiras da filiação religiosa formal.
Como as Religiões de Matriz Africana Moldaram o Comportamento Brasileiro
A influência dessas crenças no comportamento social é profunda. O conceito de “axé”, por exemplo, transcendeu os muros dos terreiros e se tornou uma saudação comum, significando energia positiva e força vital, termos centrais nas religiões de matriz africana.
A hospitalidade brasileira e o sentido de comunidade também bebem da fonte. A estrutura de acolhimento dos terreiros, onde todos se chamam de “irmãos” e compartilham refeições sagradas, influenciou a maneira como os brasileiros constroem laços de amizade e vizinhança.
Além disso, elas trouxeram uma visão de mundo menos punitiva e mais integrada aos ciclos naturais. A ideia de que o sagrado está presente no banho de mar, na folha que cura e na comida que alimenta é uma herança direta dessa espiritualidade.
| Elemento Cultural | Influência das Religiões de Matriz Africana |
| Culinária | Acarajé, vatapá, caruru e o uso do dendê. |
| Música | Ritmos percussivos, samba, ijexá e instrumentos como o agogô. |
| Linguagem | Termos como caçula, moleque, axé, saravá e mandinga. |
| Moda | O uso de roupas brancas às sextas-feiras e contas de proteção. |
A musicalidade presente nos rituais do Candomblé e da Umbanda extrapola os terreiros e se manifesta em expressões culturais como o maracatu, onde o som dos tambores carrega simbolismos religiosos, memória ancestral e identidade coletiva.
O Papel das Religiões de Matriz Africana na Resistência Histórica
Durante séculos, elas foram proibidas e perseguidas. Para sobreviver, os praticantes criaram o sincretismo, associando Orixás a santos católicos. Essa estratégia permitiu que a essência permanecesse viva sob uma fachada aceitável pela elite da época.
A resistência não foi apenas espiritual, mas física. Muitos quilombos eram organizados em torno de líderes religiosos das religiões de matriz africana, que forneciam a base moral e estratégica para a luta contra a escravidão. O terreiro era, e ainda é, um espaço de liberdade e reafirmação de dignidade.
Hoje, a luta continua contra o preconceito e a intolerância. Reconhecer essas religiões como patrimônio cultural é um passo essencial para a reparação histórica e para o fortalecimento da democracia brasileira.
Orixás, Guias e a Cosmologia das Religiões de Matriz Africana

Para entender o Brasil, é preciso conhecer as figuras centrais das religiões de matriz africana. Cada Orixá ou Guia representa um arquétipo psicológico e uma força da natureza, permitindo que o fiel se identifique e busque equilíbrio em áreas específicas da vida.
- Oxum: A deusa das águas doces e do amor, ensinando sobre diplomacia e fertilidade.
- Ogum: O senhor do ferro e dos caminhos, simbolizando a coragem e a tecnologia.
- Iemanjá: A mãe de todos, rainha do mar, talvez a figura mais popular no imaginário popular brasileiro.
- Exu: O mensageiro, responsável pela comunicação e pelo movimento, muitas vezes incompreendido por quem não conhece a profundidade das religiões de matriz africana.
Essa diversidade de divindades refletem a pluralidade do povo brasileiro. Não há um Deus único e distante, mas uma família espiritual que interage constantemente com o mundo material.
A Influência das Religiões de Matriz Africana na Gastronomia
Você sabia que muitos pratos típicos da culinária brasileira nasceram como “comida de santo”? O acarajé, símbolo da Bahia, é originalmente uma oferenda para Iansã. A popularização desses alimentos levou o sagrado para as ruas.
O hábito de comer feijoada, embora tenha origens diversas, foi aprimorado e ressignificado nos ambientes de celebração das religiões de matriz africana. O uso de temperos como o azeite de dendê, o leite de coco e a pimenta malagueta são marcas registradas dessa herança gastronômica.
Elas ensinam que cozinhar é um ato de amor e de conexão com os ancestrais. Essa filosofia permeia as cozinhas domésticas de milhões de brasileiros, que veem na alimentação uma forma de nutrir tanto o corpo quanto o espírito.
Desmistificando Preconceitos sobre as Religiões de Matriz Africana
Um dos maiores desafios enfrentados é a desinformação. Por muito tempo, termos como “feitiçaria” ou “magia negra” foram usados de forma pejorativa para desqualificar a profundidade filosófica das religiões de matriz africana.
É fundamental entender que elas buscam o equilíbrio (Egbé) e a evolução espiritual. Não existe o conceito de “mal absoluto” como no maniqueísmo ocidental; o que existe é a busca por harmonia entre as intenções humanas e as forças naturais.
A educação é a ferramenta principal para combater o racismo religioso que atinge as religiões de matriz africana. Ao conhecer a ética de respeito aos mais velhos, o amor à natureza e a disciplina rituística dessas crenças, fica claro que elas são fontes de luz e sabedoria para o Brasil.
O Legado Linguístico das Religiões de Matriz Africana
O português falado no Brasil é profundamente influenciado pelas línguas africanas preservadas pelas religiões de matriz africana. Palavras como “cafuné”, “caçula”, “bagunça” e “quindim” entraram no nosso vocabulário cotidiano através dos terreiros e das senzalas.
Nas cerimônias, termos em Yorubá ou Quimbundo são utilizados para nomear rituais e objetos sagrados. Essa preservação linguística impediu que o apagamento cultural fosse total, permitindo que descendentes de africanos mantivessem uma conexão verbal com suas raízes.
Quando usamos expressões como “dar um axé” ou “estar com a macaca”, estamos, consciente ou inconscientemente, evocando o universo semântico das religiões de matriz africana. Isso prova que a nossa comunicação é moldada pela espiritualidade negra.
A Arte e a Estética das Religiões de Matriz Africana
A influência estética é vasta. Desde a arquitetura dos terreiros até as joias de crioula e os paramentos dos Orixás, a riqueza visual é inegável. Artistas plásticos renomados, como Carybé e Mestre Didi, dedicaram suas vidas a traduzir o simbolismo das religiões de matriz africana.
O design de moda contemporâneo no Brasil também bebe constantemente dessa fonte. As estampas, os tecidos e a forma de amarrar turbantes são releituras modernas de tradições milenares mantidas vivas pelas religiões de matriz africana.
Além disso, as festas populares, como o Carnaval e o Lavagem do Bonfim, são celebrações onde a estética das religiões de matriz africana toma as ruas, unindo o povo em um espetáculo de cores, sons e devoção que atrai turistas de todo o mundo.
A Ecologia Espiritual nas Religiões de Matriz Africana
Em tempos de crise climática, o ensinamento das religiões de matriz africana sobre a preservação ambiental nunca foi tão relevante. Para o praticante dessas religiões, o rio é o corpo de Oxum, a floresta é a morada de Oxóssi e a terra é a própria estrutura de Omolu.
Elas pregam que não podemos estar bem se a natureza estiver doente. Esse conceito de ecologia espiritual faz com que os terreiros sejam centros de preservação de matas e rios, pois a sobrevivência do culto depende da saúde dos elementos naturais.
Essa visão de mundo oferece um contraponto necessário ao modelo de exploração desenfreada, sugerindo uma relação de troca e respeito mútuo entre o homem e o meio ambiente.
Perguntas Frequentes sobre as Religiões de Matriz Africana
Qual a principal diferença entre Candomblé e Umbanda?
O Candomblé busca preservar as tradições africanas originais, com foco nos Orixás e na língua ritualística. A Umbanda é uma fusão brasileira que incorpora o espiritismo, o catolicismo e a influência indígena, trabalhando com guias como Pretos Velhos e Caboclos. Ambas são fundamentais religiões de matriz africana.
As religiões de matriz africana acreditam em um Deus único?
Sim. No Candomblé, acredita-se em Olorum (ou Olodumare), o criador supremo. Na Umbanda, acredita-se em Zambi. Os Orixás e guias são intermediários entre esse Deus supremo e os seres humanos, uma característica marcante das religiões de matriz africana.
Por que as pessoas usam branco nas religiões de matriz africana?
O branco simboliza a paz, a pureza e é a cor de Oxalá, o Orixá da criação. Usar branco é uma forma de buscar serenidade e proteção espiritual dentro das práticas das religiões de matriz africana.
As religiões de matriz africana são exclusivas para pessoas negras?
Não. Embora tenham origem africana e combatam o racismo, as religiões de matriz africana são abertas a todas as pessoas que buscam o sagrado com respeito e dedicação, independentemente da cor da pele ou origem étnica.
O Futuro das Religiões de Matriz Africana no Brasil
O futuro das religiões de matriz africana passa pelo reconhecimento institucional e pela proteção contra a violência religiosa. Cada vez mais, jovens buscam nessas raízes uma forma de identidade e pertencimento em um mundo globalizado e muitas vezes vazio de significado.
Elas estão se adaptando aos novos tempos, utilizando a tecnologia para difundir seus ensinamentos e combater fake news. No entanto, a essência do “pé no chão” e do contato direto com a natureza permanece inalterada, garantindo que o legado continue forte.
Como sociedade, precisamos valorizá-las não apenas como folclore, mas como filosofias de vida complexas e válidas. Elas são a prova viva da capacidade humana de criar beleza e sentido mesmo diante da dor.
Conclusão: O Axé que nos Une
Concluir que as religiões de matriz africana moldaram a identidade brasileira é reconhecer o óbvio: o Brasil é um país com alma africana. Do ritmo do nosso coração ao sabor do nosso prato favorito, as digitais dos ancestrais estão presentes em cada detalhe.
As religiões de matriz africana nos ensinaram a resiliência, a alegria como forma de resistência e o respeito sagrado pela natureza. Sem elas, o Brasil seria um país sem cor, sem ritmo e sem a profundidade espiritual que nos torna únicos no cenário global.
Que possamos caminhar com respeito por esses caminhos abertos pelas religiões de matriz africana, celebrando a diversidade que nos define. E para você que deseja se aprofundar ainda mais nessa jornada cultural, não deixe de conferir o artigo-pilar que detalha essa conexão vibrante entre arte e fé: O Elo Inquebrável: Cultura Afro-Brasileira e Suas Influências na Música, Arte e Religião.
Belisa Everen é a autora e idealizadora do blog Encanta Leitura, onde compartilha sua paixão por explorar e revelar as riquezas culturais do Brasil e do mundo. Com um olhar curioso e sensível, ela se dedica a publicar artigos sobre cultura, costumes e tradições, gastronomia e produtos típicos que carregam histórias e identidades únicas. Sua escrita combina informação, sensibilidade e um toque pessoal, transportando o leitor para diferentes lugares e experiências, como se cada texto fosse uma viagem cultural repleta de aromas, sabores e descobertas.
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