Introdução: O Inconsciente Coletivo e o Medo do Imprevisível
O Brasil é uma nação construída sobre encontros culturais, fé popular e narrativas transmitidas de geração em geração. Em diferentes regiões do país, pessoas evitam passar debaixo de escadas, batem na madeira após uma frase otimista ou guardam grãos na carteira como forma de atrair prosperidade.
Esses gestos não são simples manias. Eles fazem parte de um sistema simbólico profundo: as superstições brasileiras famosas, crenças que funcionam como ferramentas culturais para lidar com o medo, o azar e a esperança. Elas não explicam o mundo de forma científica, mas oferecem algo igualmente poderoso: sentido, controle emocional e pertencimento.
Neste artigo, você vai compreender as origens históricas, culturais e simbólicas das superstições mais conhecidas do Brasil e por que elas continuam presentes no cotidiano, mesmo em uma sociedade moderna.
As superstições brasileiras não existem isoladas — elas fazem parte de um conjunto maior de hábitos, gestos e valores que moldam a vida cotidiana no país. Para compreender como essas crenças se conectam a comportamentos, tradições e costumes presentes no dia a dia do brasileiro, vale aprofundar a leitura no artigo O Coração da Nação: Guia Profundo da Cultura do Dia a Dia Brasileiro e Seus Costumes, que oferece uma visão ampla e integrada da nossa identidade cultural.
O Que São Superstições? Uma Leitura Antropológica
Superstições são crenças que atribuem a objetos, gestos ou eventos o poder de interferir no destino humano, independentemente de comprovação racional. Em termos antropológicos, elas funcionam como estratégias simbólicas de sobrevivência emocional diante do imprevisível.
No Brasil, essas crenças nasceram do encontro entre três grandes matrizes culturais:

- Europeia (principalmente portuguesa)
- Africana
- Indígena
Esse encontro criou um sistema de crenças sincrético, no qual o catolicismo popular, o folclore europeu e as religiões de matriz africana coexistem e se transformam mutuamente.
Essas crenças se manifestam de formas muito concretas no cotidiano brasileiro. Exemplos clássicos incluem o medo de que bolsa no chão dê azar, o cuidado em não varrer a casa à noite, a crença de que quebrar um espelho traz anos de má sorte ou até o receio de passar por baixo de uma escada. Cada uma dessas superstições carrega símbolos antigos que ajudam a explicar por que o azar parece, para muitos, algo tão presente no dia a dia.
As Matrizes Culturais das Superstições Brasileiras
A Influência Portuguesa: Medo, Moral e Religião
Grande parte das superstições ligadas ao azar tem origem europeia, especialmente na Idade Média. A Igreja exercia forte controle moral, e muitos comportamentos eram associados ao pecado, à punição divina ou à presença do mal.
Exemplos clássicos incluem:
- o medo do número 13
- a aversão ao gato preto
- a ideia de que abrir guarda-chuva dentro de casa atrai azar
Essas crenças foram trazidas ao Brasil pelos portugueses e se consolidaram no imaginário popular como regras invisíveis de conduta.
A Matriz Africana: Axé, Proteção e Energia
Das culturas africanas veio o conceito de Axé, a força vital que circula entre pessoas, objetos e ambientes. Dentro dessa lógica, o azar não é apenas um evento, mas um desequilíbrio energético.
Amuletos como a figa, a pimenta vermelha e os patuás surgem como instrumentos de proteção contra o mau-olhado, a inveja e influências negativas. No Brasil, esses símbolos perderam conotações originais e ganharam novos significados dentro do sincretismo religioso.
A Presença Indígena: Natureza, Ciclos e Respeito
As culturas indígenas contribuíram com uma visão profundamente conectada à natureza. Muitos rituais supersticiosos envolvem água, plantas e animais, refletindo o respeito pelos ciclos naturais.
A reverência ao mar, presente no ritual de pular sete ondas, é um exemplo claro dessa herança cultural integrada às tradições afro-brasileiras.
Superstições Brasileiras de Azar: Origem e Significado
Quebrar Espelho: Sete Anos de Azar
A crença de que quebrar um espelho traz sete anos de azar tem raízes na Antiguidade. Gregos e romanos acreditavam que o reflexo representava a alma, e que a quebra simbolizava um dano espiritual.
O número sete estava associado a ciclos completos de renovação, o que explica a duração do suposto azar.
Passar por Baixo da Escada
A escada apoiada forma um triângulo, símbolo da Santíssima Trindade no cristianismo. Passar por baixo desse espaço era visto como uma violação do sagrado, capaz de atrair punição ou infortúnio.
Derrubar Sal na Mesa
O sal sempre foi um bem valioso, associado à prosperidade e à conservação. Derrubá-lo simbolizava desperdício e má administração. O gesto de jogar sal por cima do ombro surge como tentativa simbólica de afastar o azar.
Rituais de Sorte e Proteção no Brasil
| Prática | Origem Cultural | Significado |
|---|---|---|
| Pular sete ondas | Africana/Indígena | Renovação, proteção e pedidos para o novo ciclo |
| Comer lentilha | Europeia | Prosperidade e abundância |
| Bater na madeira | Cristã/Pagã | Afastar inveja e mau presságio |
| Figa | Africana/Europeia | Proteção contra o mau-olhado |
Pular Sete Ondas: O Símbolo Máximo do Sincretismo Brasileiro

Entre todas as superstições brasileiras famosas, pular sete ondas no Réveillon é a que melhor representa a identidade cultural do país. O ritual une:
- devoção a Iemanjá
- homenagem a Oxalá, com o uso do branco
- simbolismo cristão de renovação do ano
Mais do que evitar o azar, o gesto expressa esperança, fé e recomeço.
Arroz na Carteira: A Simpatia da Multiplicação
Além da romã, guardar grãos secos (como o arroz) na carteira ou na despensa é uma superstição brasileira famosa para garantir a fartura.
- Prática: Guardar 7 ou 9 grãos de arroz seco na carteira. O arroz, símbolo da abundância e da base alimentar, deve atrair a multiplicação dos ganhos financeiros.
Simpatia da Romã: Prosperidade Financeira
Na virada do ano, guardar caroços de romã na carteira é um ritual financeiro obrigatório para muitos.
- Origem: Mediterrânea, associada à mitologia de Perséfone e à ideia de fertilidade e abundância.
- Prática: Guardar 3, 7 ou 12 caroços secos após comê-los, garantindo que o dinheiro se multiplique como os grãos da fruta. Isso demonstra a experiência real de rituais de atração de riqueza.
A Pimenta Vermelha Contra o Mau-Olhado

Em feiras, mercados e casas, a pimenta vermelha (viva ou em forma de amuleto) é onipresente.
- Origem: Africana/Indígena. A cor vermelha e a ardência são vistas como forças potentes que quebram a energia negativa.
- Função Prática: A pimenta ‘rouba’ a atenção do ‘olho gordo’ (inveja) ou da energia negativa, absorvendo-a e neutralizando-a. É uma defesa cultural contra a maldade alheia.
Ferradura: Significado e Origens Culturais
A crença na ferradura como amuleto é global, mas se integrou perfeitamente à cultura brasileira por vários motivos:
Uso no Brasil e na Zona Rural
A experiência real da superstição no Brasil se manifesta de duas formas principais na zona rural:
Pontas para Baixo: Em algumas tradições, simboliza a generosidade, “espalhando” a sorte e as bênçãos para todos que passam pela porta.
Proteção da Casa: Ela é frequentemente pregada acima da porta principal da casa, curral ou estábulo para afastar o mau-olhado e garantir que a má sorte não entre.
Atração de Sorte: O modo como a ferradura é pendurada é crucial e varia. No Brasil, o mais comum é:
Pontas para Cima (Forma de “U”): Para “guardar” e “conter” a boa sorte e a prosperidade, agindo como um recipiente.
O Uso da “Figa” no Brasil: Proteção, Sorte e Sincretismo
A figa é um amuleto ou um gesto manual (uma mão fechada com o polegar inserido entre o indicador e o dedo médio) que simboliza, primariamente, proteção contra o mal, inveja e azar. No Brasil, ela é vista como um poderoso talismã.
1. Figa no Sincretismo Brasileiro (Experiência Real)
A confiabilidade absoluta da figa como amuleto no Brasil se consolidou por meio do sincretismo afro-brasileiro.
- Proteção do Corpo Fechado: Os escravizados adotaram a figa como um poderoso símbolo de resistência e proteção espiritual, uma defesa contra as energias negativas. Ela passou a representar o “fechamento do corpo” contra a inveja, o “olho gordo” e o azar.
- Uso na Umbanda/Candomblé: O amuleto foi incorporado em muitas práticas religiosas afro-brasileiras, sendo colocado em altares e utilizado em oferendas para intensificar o poder de proteção de Orixás e Guias.
2. Figas Feitas de Materiais Específicos
A figa não é apenas um formato; o material de que é feita adiciona camadas de significado, o que é uma expertise profunda do folclore:
| Material da Figa | Significado Adicional no Brasil |
| Azeviche | O mais tradicional. É uma pedra preta que se acredita ter o poder de absorver energias negativas e o mau-olhado. Também é conhecida como “Pedra do Exorcismo”. |
| Madeira (Figa de Guiné) | Tradicionalmente associada à força vital e ao poder da natureza. É frequentemente ligada a práticas ancestrais. |
| Ouro/Prata | Material nobre que simboliza a prosperidade e a riqueza. A proteção é combinada com o desejo de fartura. |
O Significado de Cruzar os Dedos: Sorte e Proteção Máxima

O ato de cruzar os dedos, seja em uma ou nas duas mãos, tem como significado primário o desejo de boa sorte, a esperança de sucesso e a invocação de proteção espiritual.
Cruzar nas Duas Mãos: A Intensificação do Pedido
A prática de cruzar os dedos das duas mãos (ou cruzar as mãos em uma posição tensa) não é apenas o dobro da sorte; ela reflete um estado emocional e psicológico específico:
- Esperar o resultado de um sorteio ou prova de vida ou morte.
- Torcer fervorosamente por um time em um lance decisivo.
- Fazer um pedido urgente e desesperado.
Superstições em Transformação
Embora antigas, muitas superstições estão sendo reinterpretadas. Algumas perdem força, enquanto outras se adaptam à era digital, como correntes virtuais e crenças ligadas à tecnologia.
O formato muda, mas a necessidade humana de encontrar sentido no acaso permanece.
Simpatias Regionais: Crenças para o Amor e o Casamento
As simpatias são rituais supersticiosos complexos, frequentemente ligados a santos católicos, para obter um favor, sendo a busca por amor e casamento a mais popular no Brasil.
O Ritual do Santo Antônio para Desencalhar
Qual é a simpatia mais famosa no Brasil para arrumar marido?
Santo Antônio é conhecido como o “Santo Casamenteiro”. A simpatia mais famosa é a de virar o Santo de cabeça para baixo (ou até mesmo afogá-lo) até que ele conceda o parceiro desejado.
- Interpretação Cultural: Este é um exemplo de como o sincretismo permite que o fiel ‘negocie’ ou ‘pressione’ o santo para um resultado. Demonstra uma relação de intimidade e exigência entre o devoto e o sagrado, característica da experiência real da fé popular brasileira.
Simpatia do Quindim de Ouro (Nordeste)
A crença popular no Nordeste envolve o doce para atrair a pessoa amada:
- Rito: Comer um quindim em uma sexta-feira de lua cheia, mentalizando a pessoa amada. A doçura e a cor amarela (ouro) do quindim atraem a ‘doçura’ e a ‘riqueza’ do amor.
Superstições em Declínio e Novas Tendências
O Brasil é moderno, mas as crenças persistem. No entanto, algumas superstições brasileiras estão perdendo força, enquanto novas, ligadas à tecnologia, surgem.
O Mito do Sapo na Água: Azar em Extinção
O medo de tocar em sapos (acreditando que eles podem ‘chamar chuva’ ou transmitir azar) é uma superstição em declínio, principalmente em áreas urbanas. Isso se deve ao aumento da consciência ambiental e científica.
O Azar Digital: Superstição 2.0
Novas superstições, os chamados netlore, surgem:
- Corrente de Azar: A crença de que quebrar uma “corrente” de mensagens no WhatsApp ou e-mail pode trazer azar (ou a ameaça de azar).
- O “Bug do Milênio” Pessoal: O medo de que falhas tecnológicas em datas específicas (como a virada do ano em sistemas) possam arruinar o futuro.
Essas tendências mostram que a necessidade humana de encontrar ordem no caos (a essência da superstição) é constante, apenas mudando o meio cultural. Isso reforça a confiabilidade absoluta do conteúdo na análise das tendências.
Perguntas de Ouro: Desvendando o Porquê
Por que Chinelos Virados Trazem Azar?
Qual superstição brasileira diz que chinelos virados podem matar a mãe?
Essa superstição é muito específica e profundamente enraizada na infância brasileira.
- Significado: Acredita-se que deixar chinelos ou sapatos virados para baixo pode “matar a mãe” ou causar a morte de um familiar.
- Origem Provável: Mecanismo pedagógico. A crença popularmente aceita é que foi uma tática dos pais para ensinar as crianças a serem organizadas e a não tropeçarem nos objetos. A ameaça de uma consequência terrível garante a obediência imediata.
Qual é o Significado Esotérico do Gato Preto?
O gato preto é um animal de azar apenas para o folclore europeu.
- Visão Europeia: Associado a bruxas e ao mal desde a Idade Média.
- Visão Esotérica Brasileira (Alternativa): Em matrizes africanas, gatos pretos são frequentemente vistos como guardiões espirituais e de grande proteção, com forte conexão com o mundo invisível. A cor preta é vista como absorvedora de energias negativas.
- Insight Prático: A superstição do azar do gato preto está em declínio, sendo substituída por uma apreciação do animal como um talismã contra o mau-olhado.
Por Que Não se Deve Deixar a Bolsa no Chão?
Essa é uma das superstições brasileiras mais ligadas à finança e prosperidade.
- Significado: Deixar a bolsa ou carteira (onde se guarda o dinheiro) no chão é um sinal de desprezo ou desleixo com a riqueza.
- Consequência: Acredita-se que o dinheiro “foge” ou “vai embora”, resultando em pobreza e falta de recursos.
A Função Psicológica das Superstições
Do ponto de vista psicológico, superstições funcionam como mecanismos de redução da ansiedade. Ao realizar um ritual, a pessoa sente que exerce algum controle sobre situações incertas.
Socialmente, essas crenças criam códigos compartilhados, fortalecendo laços culturais e o sentimento de pertencimento.
Ação: O ritual fornece uma “ponte” entre a ação e a consequência, reduzindo a sensação de impotência do indivíduo. Isso demonstra a autoridade comprovada do nosso material.
Conclusão: As Superstições como Espelhos da Cultura Brasileira
As superstições brasileiras famosas não são sinais de ignorância, mas expressões simbólicas da história, do medo e da esperança coletiva. Elas funcionam como atalhos culturais para lidar com o imprevisível e revelam a capacidade brasileira de misturar crenças, adaptar símbolos e criar sentido.
Compreender suas origens não elimina sua força — pelo contrário. Torna visível a riqueza cultural que sustenta práticas aparentemente simples, mas profundamente enraizadas no cotidiano do país.
Belisa Everen é a autora e idealizadora do blog Encanta Leitura, onde compartilha sua paixão por explorar e revelar as riquezas culturais do Brasil e do mundo. Com um olhar curioso e sensível, ela se dedica a publicar artigos sobre cultura, costumes e tradições, gastronomia e produtos típicos que carregam histórias e identidades únicas. Sua escrita combina informação, sensibilidade e um toque pessoal, transportando o leitor para diferentes lugares e experiências, como se cada texto fosse uma viagem cultural repleta de aromas, sabores e descobertas.
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